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O mercado começa a cobrar disciplina enquanto o ciclo de aperto mostra seus efeitos

  • fevereiro, 09


A semana começou com um sinal claro de amadurecimento — e endurecimento — do mercado. Depois de um longo período em que liquidez, narrativas e tolerância ao risco sustentaram estruturas frágeis, os eventos recentes mostram que o custo do capital voltou a ser um fator decisivo. E quem está alavancado demais começa a sentir primeiro.
No Brasil, a tomada de ações de empresas controladas por Nelson Tanure por seus credores é emblemática. A perda de participações em companhias como Light e Alliança reforça uma dinâmica clássica de ciclos de juros altos: ativos mudam de mãos, estruturas excessivamente alavancadas são desmontadas e o controle migra para quem tem balanço mais sólido. Não é um episódio isolado, mas parte de um movimento mais amplo de reorganização patrimonial no mercado brasileiro.


Esse processo acontece em paralelo a uma transformação estrutural relevante: o avanço do Brasil como potência energética. Com produção de 3,7 milhões de barris por dia em 2025, o país se consolida entre os maiores produtores globais de petróleo, com projeções que apontam para mais de 5 milhões de barris diários na próxima década. Isso reposiciona o Brasil no tabuleiro geopolítico e econômico, aumentando sua relevância fiscal, comercial e estratégica — ainda que traga desafios ambientais e de governança.
No setor público, a necessidade de ajuste também começa a aparecer de forma mais explícita. A venda de imóveis e ativos ociosos pelos Correios, somada à agenda intensa de leilões de concessões prevista para os próximos meses, sinaliza uma tentativa de aliviar pressões financeiras sem recorrer exclusivamente ao aumento de impostos. É uma estratégia que dialoga com o apetite crescente do setor privado por ativos de infraestrutura, especialmente em um ambiente de possível queda de juros à frente.
No agronegócio, o cenário é de expansão com margens mais pressionadas. O aumento da oferta global de açúcar, impulsionado pela produção brasileira, tende a manter os preços sob pressão em 2026. Ao mesmo tempo, empresas como a JBS seguem ampliando sua presença internacional, investindo no Oriente Médio e diversificando riscos geográficos e comerciais. A ampliação das importações de carne argentina pelos Estados Unidos, incentivada pelo governo Trump, reforça a leitura de que o combate à inflação segue sendo prioridade, mesmo que isso signifique reconfigurar fluxos tradicionais de comércio.


No exterior, dois sinais chamam atenção. O primeiro é o movimento contínuo dos bancos centrais, especialmente o da China, de acumular ouro. A compra recorrente do metal precioso por autoridades monetárias ao redor do mundo revela uma busca por proteção em um ambiente de incerteza cambial, tensões geopolíticas e questionamentos sobre a sustentabilidade da dívida global. O ouro volta a cumprir seu papel clássico: reserva de valor em tempos de transição.


O segundo é o impacto financeiro da transição energética mal calibrada. A forte queda das ações da Stellantis, após o reconhecimento de perdas bilionárias ligadas a veículos elétricos, mostra que a corrida pela eletrificação não é linear nem isenta de custos. O mercado começa a diferenciar discurso de execução, penalizando empresas que investiram pesado sem retorno claro ou demanda sustentável.


No pano de fundo de tudo isso, a mensagem é a mesma: o mercado entrou em uma fase mais seletiva. Capital ficou mais caro, tolerância a erros diminuiu e estruturas frágeis estão sendo testadas. Ao mesmo tempo, setores estratégicos — como energia, infraestrutura e commodities — ganham protagonismo em um mundo mais fragmentado e menos previsível.


Não é um cenário de crise, mas de ajuste. E, como sempre, ajustes redistribuem poder, capital e oportunidades. Quem entra nesse ciclo com balanço forte e visão de longo prazo tende a atravessá-lo melhor. Quem não entra, dificilmente passa ileso.

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