O Ibovespa encerrou o pregão em queda de 2,55%, ampliando as perdas do mês em meio a um ambiente de elevada incerteza global. O cenário econômico segue pressionado por três vetores principais: aceleração da inflação no Brasil, deterioração do crédito corporativo e os impactos da guerra envolvendo o Irã sobre energia, logística e comércio internacional.
O dado doméstico mais relevante do dia foi a divulgação da inflação de fevereiro. O IPCA registrou alta de 0,70% no mês, impulsionado principalmente pelo aumento dos custos de educação. O número reacende dúvidas no mercado sobre a possibilidade de início de cortes na taxa Selic no curto prazo, especialmente considerando que o impacto mais intenso da alta dos combustíveis ainda não foi incorporado aos índices de preços.
Em resposta ao avanço do petróleo, o governo brasileiro anunciou a zeragem de PIS e Cofins sobre o diesel, medida que busca evitar uma escalada imediata no preço do combustível. Ao mesmo tempo, o Executivo criou um imposto de 12% sobre exportações de petróleo, movimento que gerou debate no setor energético e entre investidores sobre seus possíveis efeitos na competitividade da produção brasileira.
No ambiente corporativo, o processo de reestruturação da Raízen continua ganhando novos capítulos. Credores da companhia pressionam por uma injeção de capital maior por parte dos acionistas como condição para negociar uma eventual conversão de dívida. A empresa enfrenta um passivo elevado em meio a um cenário de juros altos e volatilidade no mercado de energia.
Outra companhia sob atenção do mercado é a CSN. Com cerca de R$ 9,4 bilhões em dívidas vencendo em 2026, o grupo busca reforçar seu caixa antecipadamente para enfrentar o ciclo de crédito mais restritivo.
Entre transações corporativas, a Sabesp anunciou a aquisição de 23,17% das ações da Emae que pertenciam ao empresário Tércio Borlenghi Jr., controlador da Ambipar. No varejo, o investidor Silvio Tini ampliou sua participação no Grupo Pão de Açúcar para 22,5%, aproximando-se da fatia da família Coelho Diniz, atual principal acionista da companhia.
No sistema financeiro, o BTG Pactual negocia a aquisição do banco Digimais, instituição ligada ao empresário Edir Macedo, em mais um movimento de consolidação no setor bancário brasileiro.
No agronegócio, surgiram novos focos de preocupação. Tradings internacionais interromperam temporariamente compras de soja diretamente no campo após a China adotar critérios mais rígidos de tolerância sanitária. Apesar disso, as exportações do agronegócio brasileiro registraram recorde para o mês de fevereiro, reforçando a importância do setor para a balança comercial.
No cenário internacional, os custos da guerra envolvendo o Irã começam a ganhar dimensão econômica relevante. Estimativas apresentadas a legisladores americanos indicam que o conflito já custou mais de US$ 11,3 bilhões aos Estados Unidos em apenas seis dias, valor equivalente a cerca de US$ 1,9 bilhão por dia em despesas militares e operacionais.
A instabilidade também afeta o transporte marítimo global. Pelo menos 15 navios já foram atacados na região próxima ao Irã desde o início do conflito, aumentando os riscos logísticos e pressionando os custos de transporte de energia e commodities.
Em resposta ao choque energético, governos ao redor do mundo começam a adotar medidas emergenciais. A Coreia do Sul anunciou um teto para os preços dos combustíveis, enquanto os Estados Unidos flexibilizaram sanções sobre o petróleo russo pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia, numa tentativa de ampliar a oferta global e aliviar a pressão sobre os preços.
Em síntese, o ambiente econômico global continua dominado pela volatilidade provocada pelo choque energético e pelas tensões geopolíticas. Ao mesmo tempo, o Brasil enfrenta desafios adicionais ligados à inflação e ao endividamento corporativo, fatores que mantêm investidores cautelosos e reforçam a sensibilidade dos mercados a novos eventos macroeconômicos nas próximas semanas.