O mercado financeiro brasileiro teve um pregão positivo nos números, mas carregado de sinais de alerta na leitura estrutural. O Ibovespa avançou 0,87%, acumulando alta de 3,20% no mês, impulsionado principalmente por empresas ligadas a telecomunicações, enquanto setores mais cíclicos e expostos a commodities devolveram parte dos ganhos recentes. Ainda assim, o dia foi menos sobre preço e mais sobre risco — especialmente risco de crédito, de governança e de coordenação institucional.
O principal episódio doméstico veio do sistema financeiro. A Mastercard deixou de aceitar compras realizadas com cartões do Will Bank, instituição ligada ao Banco Master. Embora o Will não tenha sido incluído formalmente na liquidação do Master em novembro, o movimento da bandeira sinaliza perda de confiança operacional e financeira.
A decisão é ainda mais sensível porque a Mastercard figura entre as principais credoras do grupo. Na prática, trata-se de um alerta claro sobre como choques de crédito se propagam rapidamente por toda a cadeia financeira, mesmo quando estruturas jurídicas tentam separar riscos.
Esse episódio ocorre em meio a um ambiente já tensionado entre reguladores. Após a proposta do ministro da Fazenda de transferir a supervisão dos fundos de investimento da CVM para o Banco Central, a autarquia respondeu de forma direta: a regulação do setor é definida por lei, não por ato do Executivo. A troca pública de posicionamentos evidencia um conflito institucional em formação, com potencial de gerar insegurança jurídica justamente em um momento em que o mercado demanda previsibilidade regulatória após o caso Master.
Além das manchetes, nosso Radar Financeiro acompanha os movimentos estruturais que estão moldando o mercado: mudanças regulatórias, decisões de política econômica, fluxo de capital e riscos que ainda não se refletiram totalmente nos preços. É uma leitura contínua para quem precisa entender o contexto antes que ele vire consenso. Acesse o Radar e aprofunde a análise.
No campo corporativo, os movimentos de capital seguiram revelando um redesenho silencioso de portfólios. A Mastercard executou garantias e assumiu 32% das ações da Westwing, reforçando como credores estão cada vez mais dispostos a trocar dívida por participação acionária em cenários de estresse financeiro. Em paralelo, o Cade aprovou a aquisição da Emae pela Sabesp, marcando uma derrota relevante para Nelson Tanure e reforçando a consolidação do setor de infraestrutura sob controle estatal paulista.
O setor aéreo trouxe uma leitura mais positiva da economia real. Dados da Anac mostraram que a Latam respondeu por 42% do crescimento da aviação brasileira em 2025, evidenciando ganho de eficiência operacional e consolidação de mercado após anos de ajustes, recuperações judiciais e redução de capacidade ociosa.
No agro, o Brasil recebeu sinais mistos do exterior. A China anunciou a retomada das importações de frango do Rio Grande do Sul após embargo, aliviando pressões sobre produtores locais. Em contrapartida, as tarifas impostas pelo governo Trump ao café brasileiro geraram impacto estimado de R$ 2,4 bilhões em 2025, reforçando como decisões geopolíticas continuam afetando diretamente o saldo comercial de cadeias específicas do agronegócio.
No cenário internacional, o fluxo de capital global segue buscando oportunidades fora dos centros tradicionais. O Grupo Carso, do bilionário Carlos Slim, anunciou a compra de participações da russa Lukoil em campos de petróleo no México por US$ 600 milhões, operação que ainda depende do aval dos Estados Unidos. O negócio ilustra como ativos russos continuam sendo redistribuídos globalmente desde o início das sanções, com empresários latino-americanos assumindo protagonismo nesse rearranjo energético.
Enquanto isso, rumores de que a Berkshire Hathaway pode reduzir sua posição na Kraft Heinz indicam que até investidores conhecidos por estratégias de longo prazo estão revendo apostas em setores pressionados por mudanças no consumo. No setor de mídia, a Netflix voltou ao centro das atenções ao apresentar uma nova proposta integralmente em dinheiro pela Warner Bros. Discovery, avaliada em US$ 82,7 bilhões, sinalizando que a consolidação no streaming ainda está longe de terminar.
O dia termina com o mercado em alta, mas com uma mensagem clara: por trás do otimismo pontual dos índices, há um ambiente de crédito mais seletivo, instituições em atrito e capital global cada vez mais pragmático. Entender esses vetores deixou de ser diferencial — virou condição básica para navegar 2026.