O mercado voltou a operar sob tensão corporativa e fiscal, com o Ibovespa acumulando alta de 2,81% no mês apesar da queda de -0,69% no último pregão. O pano de fundo continua sendo crédito apertado, reprecificação de risco e maior intervenção estatal em diferentes frentes.
No Brasil, a situação da Raízen ganhou contornos ainda mais delicados. A companhia anunciou uma baixa contábil de R$ 11 bilhões, evidenciando que o plano de reestruturação operacional não foi suficiente para compensar o desequilíbrio na estrutura de capital.
O mercado já vinha penalizando seus títulos, e a deterioração do crédito amplia o custo de financiamento em um momento de juros ainda elevados. A Shell apresentou proposta pela Raízen com cheque superior ao da Cosan e sem necessidade de cisão, o que pode redefinir o futuro da companhia. Trata-se de um movimento estratégico relevante no setor de energia e açúcar, que pode alterar a governança e o perfil de risco do grupo.
O caso Master segue gerando efeitos sistêmicos. O BRB tenta atrair bancos privados para reforçar capitalização e liquidez, enquanto o setor segurador registrou queda de 4,7% na receita em 2025, impactado pelo IOF sobre VGBL.
A mensagem é clara: custo regulatório maior e menor margem para erro. Em paralelo, o governo dobrou os preços nos leilões de energia após pressão das empresas, elevando preocupações sobre impacto tarifário futuro.
No agro, o ambiente também é desafiador. O menor rebanho bovino dos EUA em 75 anos pressiona cadeias globais e pode afetar empresas brasileiras exportadoras. A Lavoro anunciou saída da Nasdaq, citando ambiente adverso no Brasil — um sinal adicional de que o mercado externo está mais seletivo com ativos ligados ao país.
No cenário internacional, dois movimentos chamaram atenção. Na Argentina, Javier Milei aprovou reformas trabalhista e penal na mesma noite, acelerando sua agenda liberalizante e alterando regras que vigoravam desde os anos 1970. Já a China consolidou seu domínio na indústria automotiva, atingindo 35% do mercado global de veículos, com produção anual equivalente à soma de EUA, Japão, Índia e México. A mudança estrutural na indústria é inequívoca.
Nos Estados Unidos, o prefeito de Nova York planeja elevar o imposto sobre imóveis pela primeira vez em mais de 20 anos. Em um contexto de desaceleração do mercado imobiliário comercial e migração de empresas, a medida pode pressionar ainda mais proprietários e investidores no setor.
A síntese do dia: crédito fragilizado no Brasil, energia e fiscal sob pressão, e um mundo que segue em transição estrutural — seja na indústria automotiva chinesa, nas reformas argentinas ou na tributação imobiliária americana. O custo do capital continua sendo o grande árbitro das decisões econômicas.