COEs voltam ao centro do debate, crédito corporativo estressa e risco institucional segue no radar
O Ibovespa encerrou o dia em queda de -1,02%, devolvendo parte dos ganhos recentes e refletindo um ambiente de maior aversão a risco. No mês, o índice ainda acumula alta de +3,53%, mas o pregão mostrou que o mercado continua sensível a eventos de crédito e a ruídos institucionais. Assaí liderou as altas, enquanto Raízen despencou quase 13%, após o rebaixamento de rating e o derretimento de seus títulos de dívida.
O caso Raízen expôs novamente um ponto estrutural do mercado brasileiro: a distribuição massiva de COEs atrelados a bonds corporativos. A deterioração do preço dos títulos da companhia acionou cláusulas de liquidação antecipada em produtos vendidos por grandes instituições financeiras. O detalhe técnico que passa despercebido por muitos investidores é central: nesses COEs, o investidor não compra diretamente a dívida da empresa, mas um título emitido pelo banco, cujo retorno está vinculado ao desempenho daquele bond. As regras contratuais permitem que, diante de um evento de crédito ou queda relevante no valor de mercado, o banco encerre a operação e devolva apenas parte do principal — muitas vezes 50% — desmontando a percepção de “capital protegido” que popularizou esses instrumentos.
O episódio reforça dois pontos relevantes para o mercado: primeiro, a crescente fragilidade do crédito corporativo brasileiro em segmentos altamente alavancados; segundo, o desalinhamento de incentivos na indústria de distribuição financeira. O estresse já havia aparecido em Ambipar meses atrás. Agora, com Raízen, o alerta deixa de ser pontual e passa a compor uma tendência. Quando títulos de empresas relevantes começam a sofrer reprecificação brusca, o impacto não fica restrito aos detentores diretos da dívida — ele se espalha por produtos estruturados, fundos e balanços bancários.
No sistema financeiro, os reflexos continuam. A exposição à Braskem gerou impacto de R$ 3,6 bilhões no Banco do Brasil e pressionou indicadores de inadimplência. Embora a petroquímica afirme estar adimplente, o mercado tenta entender onde está a origem do rombo. O pano de fundo é claro: 2025 foi um ano particularmente desafiador para o crédito, especialmente no agro, como reconheceu o próprio CEO do BB. A inadimplência rural e a compressão de margens — especialmente na soja, cuja rentabilidade está na mínima em 15 anos — criam um ambiente de maior seletividade e aumento do custo de capital.
No campo institucional, o caso Master continua gerando desdobramentos. Toffoli deixou a relatoria e o processo foi redistribuído a André Mendonça, enquanto a Polícia Federal apontou indícios de pagamentos relacionados ao banqueiro Daniel Vorcaro. O componente político-jurídico adiciona uma camada de incerteza institucional que, embora não precifique imediatamente nos ativos, compõe o prêmio de risco estrutural exigido pelo investidor estrangeiro.
No setor de commodities, o agro apresenta sinais mistos. O abate de gado bate recorde com forte demanda chinesa, sustentando o fluxo exportador. Por outro lado, a margem do produtor de soja sofre compressão significativa, refletindo preços internacionais mais fracos e custos elevados. A dinâmica reforça que o Brasil segue altamente dependente do ciclo externo de commodities, mas com rentabilidades cada vez mais heterogêneas dentro do próprio setor.
No exterior, a política comercial dos Estados Unidos voltou a sinalizar pragmatismo. Donald Trump suspendeu certas sanções tecnológicas contra a China às vésperas de reunião com Xi Jinping. O movimento indica que, apesar da retórica dura, há espaço para ajustes táticos quando interesses econômicos estratégicos estão em jogo. Para mercados globais, especialmente tecnologia e semicondutores, qualquer distensão temporária reduz volatilidade de curto prazo.
No ambiente financeiro internacional, a tokenização e a digitalização seguem avançando. A Anbima iniciou testes de tokenização com bancos brasileiros e a Bolsa de Londres anunciou a criação de uma plataforma de liquidação digital baseada em blockchain. Esses movimentos indicam que a infraestrutura de mercado está se transformando silenciosamente, enquanto investidores ainda discutem os problemas clássicos de crédito e governança.