O mercado brasileiro iniciou a semana em terreno positivo, com o Ibovespa avançando 1,06% e acumulando alta superior a 5% no mês, sustentado por um fluxo externo favorável e por notícias que, ao menos no curto prazo, melhoram a percepção de risco sobre o país. O destaque do dia foi a reconfiguração da política comercial americana, que acabou produzindo efeitos inesperadamente positivos para o Brasil.
Após a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubar parte das tarifas impostas anteriormente, o governo americano anunciou uma nova tarifa global uniforme de 15%. Embora a medida represente um endurecimento comercial em termos absolutos, estudos indicam que o Brasil tende a ser um dos maiores beneficiados, já que anteriormente enfrentava alíquotas proporcionalmente mais elevadas do que outros parceiros. Com a equalização, produtos brasileiros ganham competitividade relativa no mercado americano, especialmente em setores intensivos em commodities e manufaturas básicas.
No campo corporativo doméstico, a conclusão da reestruturação financeira da Azul marcou um dos principais eventos do setor aéreo recente. Após meses de negociações com credores e investidores, a companhia anunciou a entrada de grandes parceiras internacionais como sócias, sinalizando melhora na estrutura de capital e maior capacidade de financiamento futuro. O episódio também reforça os riscos inerentes ao setor, altamente sensível a juros, câmbio e preço de combustíveis.
O sistema financeiro regional segue sob atenção. O Banco de Brasília confirmou um plano de capitalização apoiado pelo governo do Distrito Federal, que pretende utilizar imóveis públicos como garantia. A medida reflete as consequências persistentes da crise envolvendo instituições financeiras locais e a necessidade de recompor indicadores de solvência para preservar a confiança dos depositantes e investidores.
Outros movimentos corporativos indicam reorganização em setores estratégicos. A possível entrada de um sócio na Comerc, braço de energia da Vibra, aponta para continuidade da consolidação no mercado elétrico, enquanto a venda de ativos de telecomunicações por Nelson Tanure sugere desalavancagem e reposicionamento de portfólio por parte de grupos empresariais altamente endividados.
No agronegócio, persistem entraves regulatórios importantes, especialmente na definição das regras para bioinsumos — área considerada estratégica para produtividade e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, a desistência de um grande grupo cooperativo de recorrer à recuperação judicial sugere algum alívio financeiro em segmentos específicos do setor.
No cenário internacional, os dados de atividade econômica dos Estados Unidos trouxeram sinais de desaceleração. O PIB americano cresceu 1,4% no quarto trimestre, abaixo das expectativas, impactado por paralisações administrativas e condições financeiras mais restritivas. Esse ritmo mais moderado reforça a percepção de que a economia americana entra em fase de crescimento mais lento, com potenciais efeitos sobre juros globais, fluxos de capital e demanda por exportações.
Em síntese, o dia foi marcado por uma combinação rara de fatores positivos para o Brasil — melhora relativa na política comercial externa e avanços corporativos domésticos — contrastando com sinais de enfraquecimento da maior economia do mundo. O equilíbrio entre esses vetores será determinante para definir a trajetória dos mercados nas próximas semanas, especialmente em um ambiente ainda dominado por incertezas geopolíticas e financeiras.