O pregão encerrou a semana em tom positivo, com o Ibovespa avançando 1,35% e acumulando ganho próximo de 4% no mês, refletindo uma combinação de dados domésticos melhores do que o esperado e movimentos relevantes no cenário corporativo global. O principal destaque veio da atividade econômica brasileira, cuja prévia oficial indicou expansão superior às projeções do próprio governo.
O IBC-Br — indicador considerado a “prévia do PIB” — apontou crescimento de 2,5% da economia em 2025, acima dos 2,2% estimados pela equipe econômica. Mais uma vez, o agronegócio foi o grande motor da expansão, com avanço expressivo de 13% em 12 meses. O resultado reforça a dependência estrutural do país de ciclos favoráveis de commodities e produtividade agrícola, especialmente em um ambiente de juros elevados e investimento doméstico contido. O desempenho também ajuda a explicar o recorde de movimentação de cargas no Porto de Santos, evidenciando o papel central das exportações na sustentação da atividade.
No setor financeiro, os efeitos da crise envolvendo instituições ligadas ao caso Master continuam reverberando. O rombo do Fundo Garantidor de Créditos já representa mais de 40% do lucro agregado dos grandes bancos em 2025, dimensão que ilustra o peso sistêmico do episódio. Embora o FGC seja um mecanismo de estabilização, sua recomposição tende a exigir contribuições adicionais do setor, o que pode pressionar custos e restringir a oferta de crédito no médio prazo.
No campo corporativo, a semana trouxe um movimento potencialmente relevante para a indústria de materiais básicos. O grupo J&F avalia a aquisição da CSN Cimentos, negócio que reflete um fenômeno recorrente em ciclos de juros elevados: a transferência de ativos de controladores altamente alavancados para grupos com balanços mais robustos. Se confirmada, a operação poderá acelerar a consolidação do setor e redefinir a dinâmica competitiva no mercado de cimento.
Mudanças regulatórias também entraram no radar. Uma nova legislação passa a impedir que devedores contumazes utilizem a recuperação judicial como estratégia para renegociação fiscal, tentativa de reduzir abusos e melhorar a eficiência da cobrança tributária. Embora pontual, a medida pode alterar o comportamento financeiro de empresas altamente endividadas.
No exterior, o noticiário foi dominado por dois temas estruturais. O primeiro é geopolítico: os Estados Unidos estabeleceram um prazo de cerca de dez dias para decidir sobre um possível ataque ao Irã, mantendo elevado o prêmio de risco nos mercados de energia e segurança internacional. O segundo é corporativo e simbólico: a Amazon ultrapassou o Walmart e tornou-se a maior empresa do mundo em vendas anuais, encerrando mais de uma década de liderança da varejista tradicional. O marco evidencia a transformação estrutural do consumo global, com predominância crescente do comércio digital e de modelos logísticos integrados.
Outros dados globais reforçam a reconfiguração econômica em curso. A China consolidou sua liderança industrial ao atingir 35% da produção mundial de automóveis, enquanto investidores institucionais continuam aumentando exposição a ativos alternativos, como criptomoedas, mesmo após períodos de forte volatilidade.
Em síntese, o dia combinou sinais positivos de curto prazo — crescimento econômico acima do esperado e desempenho sólido da bolsa — com riscos estruturais relevantes. Dependência do agro, fragilidade do sistema financeiro após choques recentes e tensões geopolíticas persistentes formam um cenário complexo, no qual a trajetória futura da economia brasileira seguirá fortemente condicionada ao ambiente externo e às condições financeiras globais.