O mercado começou a semana em compasso de espera. O Ibovespa encerrou o pregão praticamente estável, com leve alta de 0,03%, refletindo um ambiente de incerteza mais qualitativa do que numérica. Não foi um dia de grandes movimentos de índice, mas de sinais importantes sobre o rumo da economia brasileira, da regulação financeira e das tensões geopolíticas que seguem moldando decisões de investimento.
O principal ponto de atenção doméstico foi a tentativa do governo de redesenhar o mapa regulatório do sistema financeiro. Após o escândalo envolvendo o Banco Master, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propôs retirar da CVM a supervisão dos fundos de investimento e transferi-la para o Banco Central. A justificativa é concentrar poderes em um único regulador mais robusto, mas o movimento acende alertas sobre enfraquecimento institucional, perda de autonomia e sobrecarga do BC, que já opera sob pressão crescente. Não por acaso, Haddad afirmou que o atual presidente do Banco Central herdou um “abacaxi” da gestão anterior, numa tentativa clara de deslocar responsabilidades políticas.
O caso Master, aliás, continua se desdobrando. O Banco Central notificou o BRB por insuficiência patrimonial, enquanto avança o processo de ressarcimento aos credores do Master: cerca de 600 mil pedidos já foram registrados, com aproximadamente 400 mil investidores na fase efetiva de pagamento. O episódio reforça um ponto sensível do sistema financeiro brasileiro: a fragilidade de instituições médias em ambientes de juros elevados e fiscalização tardia.
Além das manchetes, nosso Radar Financeiro acompanha os movimentos estruturais que estão moldando o mercado: mudanças regulatórias, decisões de política econômica, fluxo de capital e riscos que ainda não se refletiram totalmente nos preços. É uma leitura contínua para quem precisa entender o contexto antes que ele vire consenso. Acesse o Radar e aprofunde a análise.
Enquanto o setor financeiro lida com rearranjos institucionais, o consumo brasileiro segue dando sinais de distorção. Mesmo após a implementação de tarifas, as importações de produtos de baixo valor — as chamadas “blusinhas” — continuam avançando em ritmo acelerado. Em dezembro de 2025, as compras somaram R$ 1,5 bilhão, alta de 49% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O dado evidencia um desafio estrutural para o varejo nacional: o preço segue sendo o principal determinante de consumo, mesmo em um cenário de tentativa de proteção da indústria local.
No campo corporativo, movimentos relevantes também marcaram o dia. A Cambuhy, veículo de investimentos da família Moreira Salles, zerou sua participação na Eneva, enquanto a família Paulus ampliou sua fatia na CVC, reforçando apostas seletivas em empresas ligadas ao consumo e turismo. Ao mesmo tempo, a Justiça prorrogou por mais 90 dias a suspensão de obrigações da Oi, prolongando um dos processos de reestruturação mais longos da história corporativa brasileira.
No agro, o destaque veio do café. Embora o volume exportado tenha recuado 21% em 2025, a receita atingiu recorde histórico, refletindo preços internacionais mais elevados e reforçando o papel do setor como amortecedor externo da economia brasileira.
No cenário internacional, a China anunciou crescimento de 5% em 2025, exatamente dentro da meta estipulada pelo governo. A precisão quase matemática do número reforça o controle estatal sobre a comunicação econômica, mas não dissipa dúvidas sobre a qualidade desse crescimento.
Em paralelo, a OpenAI revelou que sua receita anualizada saltou para US$ 20 bilhões no último ano, sinalizando não apenas a consolidação da inteligência artificial como setor econômico relevante, mas também explicando a decisão da empresa de começar a testar anúncios no ChatGPT — um marco simbólico do fim do “almoço grátis” na tecnologia.
O pano de fundo geopolítico segue carregado. Donald Trump anunciou tarifas de 10% contra países da OTAN que enviaram tropas à Groenlândia, ampliando tensões comerciais com aliados históricos e adicionando mais um vetor de incerteza ao comércio global. O recado é claro: política externa e política econômica continuam profundamente entrelaçadas, com impactos diretos sobre cadeias produtivas, inflação e fluxo de capitais.
O dia terminou sem grandes oscilações nos preços, mas com sinais claros de que o mercado está menos interessado em euforia e mais atento a riscos estruturais. Regulação, consumo, geopolítica e tecnologia seguem disputando protagonismo em um ambiente que exige leitura fina — não apenas dos números, mas das intenções por trás deles.