Justiça internacional, tensões comerciais e o redesenho do risco global
A sexta-feira, 9 de janeiro, foi marcada por uma combinação potente de decisões judiciais, movimentos políticos e sinais claros de reprecificação de risco nos mercados globais. Do reconhecimento internacional da liquidação do Banco Master às novas fricções comerciais entre Europa e América do Sul, o noticiário do dia reforça como a economia passou a operar sob forte influência de decisões institucionais e geopolíticas.
No Brasil, o principal destaque veio da Justiça dos Estados Unidos, que reconheceu oficialmente a liquidação do Banco Master e determinou o bloqueio de ativos ligados ao grupo. A decisão dá respaldo internacional ao processo conduzido pelo Banco Central brasileiro e abre caminho para a atuação do liquidante fora do país, responsável por mapear e avaliar bens no exterior. O episódio ganhou ainda mais repercussão após a circulação de informações sobre contratos milionários pagos a influenciadores para criticar o BC, o que acendeu alertas sobre tentativas de pressão política e narrativa pública em torno do caso. Em paralelo, o Tribunal de Contas da União recuou da ameaça de desfazer a liquidação, reduzindo, ao menos por ora, o risco institucional em torno do processo.
Ainda no ambiente doméstico, o presidente Lula indicou o advogado Otto Lobo para a Comissão de Valores Mobiliários, movimento que reforça a atenção do mercado sobre o perfil técnico e político dos próximos reguladores. No setor corporativo, a Azul anunciou uma reestruturação agressiva ao emitir mais de um trilhão de ações, transformando credores em acionistas — uma estratégia dilutiva, mas necessária para aliviar a pressão financeira da companhia. Já os dados econômicos trouxeram sinais mistos: a produção industrial ficou estável em novembro, segundo o IBGE, enquanto a Receita Federal estima arrecadar R$ 1,5 bilhão com a atualização do valor de bens imóveis.
O agronegócio também esteve no centro das atenções, especialmente no front internacional. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que a França votará contra o acordo entre União Europeia e Mercosul, reacendendo incertezas sobre um tratado que se arrasta há décadas. Ao mesmo tempo, o Brasil comemorou recorde histórico nas exportações de algodão em 2025, enquanto as vendas externas de suco de laranja recuaram tanto em volume quanto em receita, refletindo desafios de mercado e preços internacionais.
No cenário global, o aumento das tensões envolvendo a Venezuela começou a produzir efeitos colaterais relevantes. A China solicitou que seus bancos informem a exposição ao país sul-americano após a intervenção dos Estados Unidos, sinalizando preocupação com possíveis perdas financeiras. Pequim se tornou um dos principais financiadores da Venezuela nas últimas décadas, e um conflito mais direto não estava nos cálculos iniciais dos chineses. Ainda sobre o tema, Donald Trump afirmou que a Venezuela passará a comprar exclusivamente produtos americanos com a receita do petróleo, deixando claro o viés estratégico e econômico da atuação dos EUA na região.
Nos Estados Unidos, Trump também propôs elevar em 50% os gastos com Defesa, levando o orçamento militar para US$ 1,5 trilhão até 2027 — um valor que amplia ainda mais a distância em relação ao restante do mundo, já que o país gasta mais do que os nove seguintes do ranking somados. No setor corporativo, Chevron e Quantum avançaram em negociações para comprar ativos internacionais da Lukoil, enquanto o JPMorgan desponta como favorito para assumir o negócio de cartões de crédito da Apple, atualmente operado pelo Goldman Sachs. Já no entretenimento, a Paramount insistiu em uma proposta de US$ 30 por ação após nova rejeição da Warner, prolongando uma disputa que pode redefinir o setor de mídia.
Por fim, os protestos no Irã, desencadeados por problemas econômicos, se espalharam por todo o país, reforçando a instabilidade interna em um dos principais polos geopolíticos do Oriente Médio.
O conjunto das notícias desta sexta-feira evidencia um ambiente global em que decisões jurídicas, políticas industriais, gastos militares e movimentos corporativos estão cada vez mais interligados. Para investidores e líderes empresariais, o recado é claro: entender o risco hoje exige olhar muito além dos números — e cada vez mais para os bastidores do poder.