Crédito estressado, mercado reabrindo e primeiros sinais de travamento global

O dia traz uma combinação relevante: tentativa de reativação do mercado de capitais em paralelo a um claro agravamento do risco de crédito — tanto no Brasil quanto lá fora. O dado mais sensível é doméstico. Mais da metade da população adulta inadimplente não é apenas um número alto — é um nível de saturação do sistema de crédito. Isso implica menor capacidade de consumo, maior custo de concessão e tendência de aperto adicional nas condições financeiras. O efeito é cumulativo: crédito mais caro → mais inadimplência → menor oferta → desaceleração econômica. Nesse contexto, a atuação do Banco Central do Brasil ganha ainda mais relevância. A volta à compra de dólar futuro após uma década não é um detalhe técnico — é gestão ativa de balanço. O objetivo de reduzir o estoque de swaps indica preocupação com exposição cambial e possíveis distorções no mercado. Em termos práticos, é um ajuste fino para evitar volatilidade excessiva no câmbio em um ambiente já fragilizado. Ao mesmo tempo, há um sinal positivo — ainda que pontual — no mercado de capitais. O IPO da Compass, ligado à Cosan, marca a reabertura de um mercado que ficou praticamente fechado por cinco anos. A demanda forte sugere que há liquidez disponível, mas altamente seletiva. Não é uma volta generalizada — é capital indo para ativos específicos, com tese clara e pricing adequado. Outro movimento relevante é a decisão da B3 de aceitar fundos imobiliários como garantia. Isso amplia a eficiência do mercado, mas também indica tentativa de destravar liquidez em um ambiente onde colaterais tradicionais podem estar mais escassos ou pressionados. No exterior, o alerta é mais estrutural. Um REIT da Starwood Capital Group suspender resgates não é um evento isolado — é um mecanismo clássico de defesa contra corridas por liquidez. Quando fundos imobiliários começam a limitar saques para evitar venda forçada de ativos, o mercado está sinalizando desalinhamento entre liquidez prometida e liquidez real dos ativos. Esse tipo de movimento já foi observado em ciclos anteriores de estresse e costuma ser contagioso, especialmente se combinado com juros elevados e queda no valor dos ativos. Por outro lado, a Samsung atingindo US$ 1 trilhão de valor de mercado mostra que o fluxo global continua concentrado em grandes plataformas — um padrão típico de ambientes incertos, onde capital busca segurança e escala. Em síntese, o quadro é de divergência: mercado de capitais tentando reabrir de forma seletiva, enquanto o crédito — base da economia — mostra sinais claros de exaustão. No exterior, os primeiros travamentos de liquidez começam a aparecer. Esse tipo de combinação raramente é estável por muito tempo.