Crédito estoura, inflação reacelera e energia volta ao centro do risco

O mercado abre pressionado por uma combinação que começa a ganhar consistência: fragilidade no sistema financeiro, pressão inflacionária e risco energético voltando ao radar. O principal destaque é o rombo de R$ 57,4 bilhões no FGC ligado ao caso Master. Esse número não é apenas grande, ele redefine a percepção de risco no sistema. Parte relevante já foi consumida em coberturas e empréstimos, o que reduz o colchão de segurança para novos eventos de crédito. Na prática, isso tende a deixar bancos mais conservadores, encarecer funding e apertar ainda mais as condições financeiras. Esse movimento conversa diretamente com o restante do cenário. A inflação medida pelo IPCA-15 acelerou para 0,89% em abril, puxada por alimentos e, principalmente, combustíveis. E aqui está o ponto crítico: a Petrobras já sinaliza um novo reajuste de gasolina nos próximos dias, o que pode prolongar, ou até intensificar, essa pressão inflacionária no curto prazo. No campo energético global, o ambiente segue instável. A saída dos Emirados Árabes da Opep em meio às tensões com o Irã adiciona mais imprevisibilidade à oferta de petróleo. Isso reduz coordenação entre produtores e aumenta a volatilidade dos preços, exatamente no momento em que combustíveis já voltam a pressionar índices de inflação. No corporativo, há sinais mistos, mas com viés construtivo em mercado de capitais. O IPO da Compass, da Cosan, indica reabertura gradual da janela de equity, buscando valuation relevante de até R$ 25 bilhões. Esse tipo de movimento sugere alguma retomada de apetite por risco, ainda que seletiva. Por outro lado, a economia real mostra distorções importantes. O dado da CNC, apontando perda equivalente a “dois Natais” no varejo por migração de renda para apostas, reforça uma mudança estrutural no consumo, com impacto direto sobre setores tradicionais. No agro, o fluxo segue positivo, com captação robusta para reflorestamento e manutenção do crédito elevado, indicando que o setor ainda consegue navegar melhor nesse ambiente mais restritivo. Em síntese, o dia começa com deterioração clara no eixo de crédito e inflação, enquanto energia volta a ser vetor central de risco. O mercado entra em uma fase mais sensível, onde choques pontuais especialmente em petróleo e sistema financeiro, têm potencial de gerar efeitos mais amplos.