Alívio pontual na dívida, stress no crédito e escalada geopolítica sem solução

O mercado inicia o dia com um pano de fundo contraditório: melhora marginal no fiscal de curto prazo, mas deterioração clara no crédito e manutenção do risco externo elevado. Apesar do dado de queda da dívida pública para R$ 8,633 trilhões (-2,34%), o movimento tem leitura limitada. Trata-se mais de um ajuste pontual do que uma mudança estrutural de trajetória. O nível absoluto segue elevado e próximo de zonas críticas, o que mantém o risco fiscal como variável central no médio prazo. No micro, o foco está no crédito. O lançamento do Desenrola 2.0, com descontos que podem chegar a 90% e uso do FGTS, reforça o diagnóstico de deterioração relevante na capacidade de pagamento das famílias. Com cerca de 30% da renda comprometida com dívidas e juros do rotativo ainda em patamares extremamente elevados, o programa atua mais como mitigador de curto prazo do que solução estrutural. Esse stress não está restrito ao consumo. No agro, as recuperações judiciais cresceram quase 60% em um ano, evidenciando pressão relevante de custos, especialmente com insumos como ureia, e piora nas relações de troca. É um sinal importante, considerando que o setor vinha sendo um dos pilares de resiliência da economia. No corporativo, há movimentações estratégicas relevantes. A disputa da Ultra por participação na Rumo e a potencial oferta de R$ 10 bilhões da Engie Brasil indicam continuidade de consolidação e busca por escala em setores intensivos em capital. Esses movimentos costumam ocorrer em momentos de desorganização, onde ativos podem ser adquiridos com desconto. Um ponto adicional relevante é a queda expressiva no preço da semaglutida no Brasil, após perda de patente. Isso tende a ampliar acesso e pode gerar impacto relevante em segmentos de saúde e consumo no médio prazo. No cenário global, o vetor dominante continua sendo geopolítico. A troca de listas de “inegociáveis” entre Irã e EUA indica endurecimento de posições, reduzindo a probabilidade de resolução rápida do conflito. A manutenção da tensão em torno do Estreito de Ormuz segue como risco direto para energia, logística e inflação global. Por fim, o avanço do capital estrangeiro em grandes conglomerados de mídia, como Paramount e Warner Bros., reforça uma tendência mais ampla de internacionalização de ativos estratégicos, movimento que contrasta com restrições vistas em outros setores e geografias. Em síntese, o dia começa com um leve alívio técnico no fiscal, mas com deterioração mais profunda no crédito, tanto no consumo quanto no agro e um cenário externo ainda travado. A combinação mantém o ambiente de risco elevado e sem gatilhos claros de melhora estrutural no curto prazo.