Diesel artificialmente barato eleva risco de escassez enquanto inadimplência dispara no Brasil

O Ibovespa fechou em alta de 0,32%, em um movimento ainda moderado de recuperação. No entanto, o índice segue acumulando queda de 3,33% no mês, reforçando que o ambiente de risco permanece elevado, com pressões tanto domésticas quanto externas. O principal ponto de atenção no Brasil está no mercado de combustíveis. A Petrobras passou a praticar preços de diesel abaixo da paridade internacional, o que distorce os incentivos de importação. Em um país que não é autossuficiente no derivado, esse movimento cria um efeito direto: importadores deixam de trazer produto, reduzindo a oferta interna e elevando o risco de escassez. A implicação macro é relevante. O diesel é um insumo crítico para a logística nacional e para o agronegócio. Qualquer disrupção na oferta tende a gerar efeitos em cadeia sobre preços, distribuição e atividade econômica, especialmente em um momento já pressionado por custos elevados. Outro sinal de fragilidade estrutural vem do crédito. A inadimplência atingiu 81,7 milhões de brasileiros, com crescimento de 38% em uma década. O dado indica deterioração da capacidade de pagamento das famílias, em um contexto de juros ainda elevados e inflação resiliente. Esse cenário tende a limitar o consumo e aumentar o risco para instituições financeiras e varejo. No campo fiscal, a arrecadação federal cresceu 5,68% em fevereiro e atingiu recorde para o mês, sugerindo alguma resiliência da atividade econômica. Ao mesmo tempo, o governo discute alternativas para conter a alta do diesel sem abrir mão de receita, propondo dividir subsídios com estados em vez de zerar o ICMS, evidência de restrição fiscal. No setor de infraestrutura, o leilão do Aeroporto de Guarulhos atraiu múltiplos interessados, incluindo operadores internacionais, sinalizando apetite por ativos estratégicos mesmo em ambiente de incerteza. No agronegócio, os riscos seguem aumentando. A combinação de conflito geopolítico e restrições comerciais começa a afetar a oferta global de fertilizantes. A Rússia restringiu exportações de nitrogenados, enquanto projeções indicam possível escassez de potássio. Esse cenário pressiona custos de produção e pode impactar a próxima safra. No cenário internacional, o risco geopolítico voltou a escalar. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos avaliam entrar diretamente no conflito contra o Irã, o que ampliaria significativamente o impacto sobre o mercado global de energia. Além disso, o Irã passou a cobrar até US$ 2 milhões de navios para garantir passagem segura pelo Estreito de Ormuz, uma sinalização clara de disrupção logística em uma das rotas mais estratégicas do mundo. Esse conjunto de fatores reforça a leitura de que o choque energético ainda está longe de se dissipar. Mesmo com momentos pontuais de alívio no preço do petróleo, o risco de oferta segue elevado. Em síntese, o cenário atual combina três vetores críticos: – intervenção no mercado de combustíveis, com risco de desabastecimento– deterioração do crédito doméstico, limitando consumo e aumentando risco sistêmico– escalada geopolítica, com potencial de novo choque nos preços de energia A leitura estratégica é direta: o mercado ainda está em fase de ajuste, com riscos estruturais se acumulando, e não sendo resolvidos.