Diesel sobe no Brasil e choque do petróleo começa a contaminar outras commodities

O Ibovespa iniciou a semana sob pressão após encerrar a sexta-feira anterior em queda de 0,91%, acumulando perdas de quase 6% no mês. O pano de fundo continua sendo o mesmo que domina os mercados nas últimas semanas: o choque no preço do petróleo e seus efeitos em cadeia sobre inflação, commodities e atividade econômica. No Brasil, o principal movimento veio da Petrobras, que elevou o preço médio do diesel em R$ 0,38 por litro, equivalente a um reajuste de 11,6%. Com a mudança, o valor médio do diesel A vendido às distribuidoras passou para cerca de R$ 3,65 por litro. O aumento ocorre após semanas de pressão no mercado internacional de energia e tende a se refletir gradualmente nos custos de transporte e na inflação doméstica. O Ministério da Fazenda já começou a revisar suas projeções macroeconômicas. A expectativa de inflação para 2026 foi elevada para 3,7%, ante estimativa anterior de 3,6%, refletindo o impacto do petróleo mais caro. Embora a gasolina tenha peso de aproximadamente 5% no índice de preços ao consumidor, o efeito indireto tende a ser mais amplo, já que cerca de 80% da movimentação de cargas no Brasil ocorre por transporte rodoviário, altamente dependente do diesel. A escalada energética também começa a contaminar outros mercados de commodities. O alumínio registrou alta de cerca de 9% após relatos de bloqueio no Estreito de Ormuz, ponto estratégico por onde passa parcela relevante do petróleo mundial. A interrupção logística levou inclusive à redução de produção na maior usina global do metal. No agronegócio, os efeitos da pressão inflacionária também aparecem em alimentos. O preço do tomate acumula alta superior a 20% em 2026, contribuindo para a volatilidade do grupo de alimentação no índice de inflação. Ainda no setor agrícola, o Ministério da Agricultura alterou regras de inspeção da soja após pressão de tradings exportadoras. A mudança busca destravar compras que haviam sido interrompidas após a China adotar critérios sanitários mais rígidos para a commodity brasileira. No ambiente corporativo, algumas movimentações relevantes ocorreram. A CSN Cimentos passou a atrair interesse de potenciais compradores estratégicos, incluindo a Votorantim e a companhia chinesa Huaxin, indicando possível consolidação no setor de materiais de construção. No setor de saúde, a Porto negocia um aporte de aproximadamente R$ 1 bilhão e a possível aquisição do controle da Oncoclínicas, operação que pode redesenhar a estrutura de capital da empresa de oncologia. Outra iniciativa importante veio do BNDES, que selecionou cinco fundos de índice (ETFs) para receber até R$ 1 bilhão em investimentos, numa estratégia voltada ao desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro. No cenário internacional, sinais de desaceleração econômica começam a aparecer nos Estados Unidos. A segunda leitura do PIB do quarto trimestre indicou crescimento anualizado de 0,7%, abaixo de estimativas anteriores, sugerindo perda de fôlego na atividade. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho americano continua mostrando resiliência, com aumento no número de vagas de emprego em aberto em janeiro. O encarecimento da gasolina também começa a alterar o comportamento do consumidor nos Estados Unidos. O aumento nos custos de combustíveis reacendeu o interesse por veículos elétricos, tendência que pode ganhar força caso os preços da energia permaneçam elevados. Em síntese, o choque no mercado de petróleo segue se espalhando pela economia global. O impacto inicial na energia já começa a influenciar inflação, custos logísticos e preços de outras commodities, criando um ambiente macroeconômico mais instável e desafiador para os mercados nas próximas semanas.