Petróleo domina agenda global enquanto crédito e empresas pressionam mercado brasileiro

O pregão terminou com forte queda do Ibovespa, que recuou 2,64%, ampliando as perdas acumuladas no mês. O movimento reflete um ambiente de aversão a risco marcado por três fatores simultâneos: juros elevados, deterioração do crédito corporativo e nova escalada geopolítica ligada ao conflito envolvendo o Irã. O principal evento internacional do dia foi a decisão dos Estados Unidos de conceder uma autorização temporária para que a Rússia volte a vender petróleo para a Índia durante 30 dias. A medida ocorre em meio à crise de oferta no mercado energético global, agravada pelo risco de interrupções logísticas no Oriente Médio. Na prática, a decisão evidencia uma flexibilização pragmática das sanções energéticas diante da necessidade de estabilizar os preços do petróleo. A tensão na região também começa a afetar o transporte aéreo global. Mais de 23 mil voos foram impactados desde o início da escalada militar, incluindo cancelamentos de rotas que conectam o Brasil a países do Oriente Médio. Conflitos armados em regiões estratégicas para o petróleo tendem a gerar efeitos amplos sobre cadeias logísticas, custos de energia e expectativas inflacionárias. No Brasil, o ambiente econômico segue mostrando sinais mistos. O mercado de trabalho apresentou melhora, com a taxa de desemprego recuando para 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, segundo o IBGE. O dado indica que a atividade econômica ainda mantém certo nível de resiliência, apesar das condições financeiras restritivas. O setor externo também trouxe um indicador positivo. A balança comercial registrou superávit de US$ 4,2 bilhões em fevereiro, impulsionado por recordes nas exportações. Commodities agrícolas e minerais continuam sendo o principal motor desse desempenho, reforçando o papel do agronegócio e da mineração no equilíbrio das contas externas brasileiras. Por outro lado, os sinais de estresse corporativo continuam se acumulando. A Raízen avalia recorrer a uma recuperação extrajudicial mesmo após um aporte recente de aproximadamente R$ 4 bilhões por parte dos acionistas, indicando que a reestruturação financeira da companhia pode ser mais profunda do que inicialmente esperado. No setor de varejo, a Casas Bahia enfrenta dificuldades operacionais relevantes. A empresa atrasou pagamentos a lojistas parceiros, adiou entregas e chegou a recorrer aos Correios para tentar normalizar parte da logística, evidenciando a pressão sobre o caixa e os desafios enfrentados por empresas altamente expostas ao crédito e ao consumo doméstico. Outro ponto que chamou atenção foi a proposta do governo brasileiro de adquirir energia gerada a carvão de usinas ligadas ao grupo J&F por valores até 50% superiores à média do mercado. A iniciativa levanta debates sobre política energética, custos tarifários e intervenção estatal em um momento de sensibilidade fiscal. No setor financeiro global, a queda recente do bitcoin não tem afastado investidores institucionais. Grandes fundos continuam mantendo posições relevantes no ativo, sinalizando que a adoção institucional de criptomoedas permanece em curso, mesmo em ciclos de volatilidade. Entre empresas globais, a Berkshire Hathaway confirmou que pretende manter no curto prazo sua participação de aproximadamente 28% na Kraft Heinz, indicando continuidade da estratégia de longo prazo da holding liderada por Warren Buffett. Em síntese, o cenário do dia foi dominado pela combinação de tensão geopolítica e fragilidade financeira corporativa. Enquanto o conflito no Oriente Médio pressiona os mercados de energia e aumenta a volatilidade global, o Brasil enfrenta simultaneamente um ambiente de crédito mais restritivo e desafios estruturais em empresas alavancadas. Esse conjunto de fatores mantém os investidores em posição defensiva e reforça a tendência de mercados mais sensíveis a eventos macroeconômicos e políticos.