Petróleo dispara e sistema financeiro segue pressionado

A quinta-feira começa com um aumento relevante da aversão ao risco global, impulsionado pela escalada das tensões no Oriente Médio e por novos sinais de estresse no sistema financeiro brasileiro. O Ibovespa encerrou o pregão em leve queda de 0,24%, mantendo ganho modesto no mês, enquanto investidores monitoram simultaneamente riscos geopolíticos e desdobramentos domésticos ligados à crise bancária recente.No exterior, a principal força de mercado veio do petróleo. Os preços da commodity avançaram cerca de 4% diante da expectativa de um possível ataque dos Estados Unidos ao Irã, cenário que ameaça diretamente uma das regiões mais sensíveis para a oferta global de energia. O temor é claro: qualquer interrupção no fluxo do Golfo Pérsico pode gerar choque de oferta, reacendendo pressões inflacionárias e alterando trajetórias de política monetária ao redor do mundo. O episódio reforça como o risco geopolítico voltou a ser um determinante central de preços, especialmente em um ambiente já fragilizado por tensões comerciais e reorganização das cadeias energéticas globais.Ainda no cenário internacional, movimentos corporativos chamaram atenção. Warren Buffett surpreendeu o mercado ao montar uma posição superior a US$ 350 milhões em ações do The New York Times, decisão interpretada como uma aposta em ativos de mídia com forte poder de marca e receita recorrente. Paralelamente, surgiram sinais de possível mudança na liderança do Banco Central Europeu, com especulações de que Christine Lagarde pode deixar o cargo antes do término do mandato. Uma eventual transição no BCE adiciona incerteza adicional à política monetária da zona do euro em um momento de crescimento frágil. No Brasil, o foco permanece no impacto sistêmico da quebra de instituições financeiras ligadas ao caso Master. A liquidação do Banco Pleno adicionou quase R$ 5 bilhões à conta do Fundo Garantidor de Créditos, elevando o total potencial de desembolsos a níveis historicamente elevados. O FGC já pagou mais de R$ 37 bilhões a credores do Master, equivalente a cerca de 92% do montante devido, evidenciando a magnitude da crise e a pressão sobre o mecanismo de proteção ao sistema bancário. Esse processo tem implicações que vão além dos ressarcimentos imediatos. A recomposição do caixa do fundo pode exigir contribuições adicionais do setor bancário, afetando custos de funding e potencialmente o crédito na economia real. Trata-se de um efeito indireto, porém relevante, que tende a se materializar ao longo dos próximos trimestres. Outros sinais do mercado doméstico indicam comportamento seletivo de investidores institucionais. O renomado gestor Stanley Druckenmiller aumentou exposição ao Brasil por meio de ETF, enquanto reduziu completamente sua posição no Nubank antes da recente valorização das ações. O movimento sugere preferência por apostas macro no país, em detrimento de casos específicos de empresas de crescimento.No setor agroindustrial, mudanças estruturais continuam em curso. O café robusta já responde por cerca de três quartos do blend brasileiro, refletindo ajustes na produção diante de custos e condições climáticas. Embora seja um dado setorial, ele evidencia como cadeias globais de alimentos também passam por reconfiguração — um tema cada vez mais relevante para inflação e comércio internacional. Em síntese, o dia foi dominado por dois vetores principais: risco geopolítico elevando preços de energia e instabilidade financeira doméstica pressionando expectativas internas. A combinação desses fatores cria um ambiente de incerteza elevada, no qual decisões de investimento tendem a privilegiar liquidez, diversificação e ativos considerados mais resilientes a choques externos.