Alta da bolsa, tensão institucional no radar e riscos externos voltam a precificar ativos

O Ibovespa avançou +2,03% no pregão, refletindo um fluxo comprador relevante e seletivo, com destaque para Suzano, que disparou mais de 13% e puxou o índice. O movimento reforça a leitura de que o capital segue entrando em ativos brasileiros quando há combinação de valuation atrativo, commodities firmes e expectativa de afrouxamento monetário adiante. Mesmo assim, o pano de fundo continua sendo de cautela estrutural, porque boa parte das notícias do dia aponta não para direção de curto prazo, mas para riscos sistêmicos de médio prazo — tanto domésticos quanto globais. No campo institucional, a investigação envolvendo Daniel Vorcaro ganhou novo capítulo após a Polícia Federal identificar conversas com o ministro Dias Toffoli em material apreendido e encaminhar o caso a Edson Fachin. Esse tipo de episódio raramente impacta o mercado no dia, mas influencia a percepção de risco institucional e previsibilidade regulatória, fatores que entram diretamente no prêmio exigido pelo investidor estrangeiro para alocar capital no país. Em paralelo, o Tribunal de Contas da União ampliou o sigilo do processo do caso Master e restringiu o acesso do Banco Central aos autos, adicionando um novo elemento de tensão entre órgãos e reforçando a sensação de disputa de competências. No setor corporativo, a deterioração financeira segue aparecendo em bolsões específicos. O grupo Dia registrou prejuízo de R$ 166,6 milhões após a liquidação do Letsbank, evidenciando como eventos no sistema financeiro podem gerar efeitos indiretos em empresas fora do setor bancário. Já no agro, o Banco do Brasil reportou seu menor lucro desde 2020, pressionado pela inadimplência rural que sobe há dez trimestres consecutivos. Esse dado é particularmente relevante porque crédito agrícola é um dos principais motores do sistema financeiro nacional; quando a inadimplência aumenta de forma persistente, a consequência costuma ser aperto nas concessões e encarecimento do capital. Ainda na agenda doméstica, o Cade aprovou a aquisição de até 8% da Azul pela United Airlines, movimento que sinaliza continuidade da consolidação estratégica no setor aéreo e reforça o interesse internacional em ativos brasileiros ligados à infraestrutura e mobilidade. No varejo digital, Assaí e Mercado Livre fecharam parceria para ampliar vendas online de supermercado, com o marketplace assumindo logística e armazenagem. A iniciativa indica uma tendência clara: grandes plataformas estão se tornando hubs logísticos completos, não apenas intermediários de venda, o que muda a dinâmica competitiva do varejo físico e digital. No agroexportador, o governo estuda limitar embarques de carne bovina para a China por meio de cotas e limites trimestrais. Caso avance, a medida pode reorganizar a oferta externa e influenciar preços internos, além de afetar margens de frigoríficos e a dinâmica cambial associada ao fluxo de exportações. No exterior, o principal fator de risco veio do campo geopolítico. Os Estados Unidos avaliam um possível ataque ao Irã e já preparam o envio de um segundo porta-aviões ao Oriente Médio. Mesmo sem ação concreta, a simples sinalização militar costuma ser suficiente para pressionar petróleo, elevar volatilidade global e fortalecer ativos defensivos. Em paralelo, a Câmara americana aprovou projeto exigindo prova de cidadania para votar nas eleições de meio de mandato, medida que amplia o clima político polarizado e pode gerar ruído institucional adicional no maior mercado financeiro do mundo. Outro movimento relevante ocorreu na Rússia, que bloqueou WhatsApp, Instagram e Facebook, decisão com implicações econômicas indiretas, sobretudo para empresas digitais globais e para a fragmentação do ambiente tecnológico internacional. Esse tipo de restrição reforça a tendência de regionalização da internet e de criação de ecossistemas digitais fechados, algo que altera cadeias de dados, publicidade e monetização.