Incerteza política externa e mudanças demográficas começam a entrar no preço dos ativos

O noticiário econômico desta terça-feira foi marcado por dois movimentos que, embora distintos, convergem para o mesmo ponto: risco estrutural voltou ao centro das decisões, tanto nos mercados quanto nas políticas públicas. No cenário internacional, a instabilidade política no Reino Unido reacendeu alertas importantes para investidores globais. O aprofundamento do caso Epstein, agora atingindo diretamente figuras centrais do governo britânico, colocou o primeiro-ministro Keir Starmer sob a maior pressão desde que assumiu o cargo. A renúncia de membros-chave do seu gabinete e o debate interno sobre sucessão fragilizam a governabilidade em uma das maiores economias do mundo. Para o mercado, esse tipo de ruído não é apenas político, ele se traduz em prêmio de risco. O Reino Unido já enfrenta desafios relevantes de crescimento, inflação persistente e necessidade de ajustes fiscais. Uma crise política prolongada pode atrasar reformas, afetar decisões de investimento e pressionar ativos britânicos, especialmente em um momento em que o capital global está mais seletivo. No Brasil, o dado mais relevante do dia veio de uma fonte menos observada pelo mercado no curto prazo, mas decisiva no longo: a demografia. Após seis anos consecutivos de queda, o número de nascimentos voltou a crescer em 2025, com alta de 2,3% frente ao ano anterior. Embora o movimento tenha sido interpretado como uma compensação pós-pandemia, com casais retomando planos adiados, ele traz implicações econômicas importantes. O crescimento populacional impacta diretamente a dinâmica fiscal, previdenciária e de mercado de trabalho. Mais nascimentos hoje significam maior população economicamente ativa no futuro, o que alivia pressões sobre sistemas de previdência e sustenta crescimento potencial. Ainda assim, o alívio é temporário: as projeções seguem indicando envelhecimento acelerado da população e início da retração demográfica nas próximas décadas. Esse contraste reforça um ponto central para investidores e formuladores de política econômica: o Brasil vive uma janela curta. A transição demográfica não foi revertida, apenas desacelerada. Isso aumenta a urgência por reformas estruturais, ganhos de produtividade e políticas que ampliem a base de arrecadação sem penalizar crescimento. No pano de fundo global, essas duas frentes, instabilidade política em economias maduras e mudanças estruturais em países emergentes, ajudam a explicar o comportamento mais cauteloso dos mercados. Investidores estão cada vez menos dispostos a pagar caro por narrativas e mais atentos a fundamentos: estabilidade institucional, trajetória fiscal, crescimento sustentável e previsibilidade regulatória. O recado do dia é claro. Em um mundo com menos margem para erro, tanto países quanto empresas estão sendo avaliados não pelo discurso, mas pela capacidade de atravessar ciclos longos com coerência. E isso, inevitavelmente, começa a se refletir nos preços dos ativos.