A economia entra em modo defensivo enquanto o mundo recalibra expectativas

A sexta-feira foi marcada por um movimento claro de ajuste de expectativas nos mercados globais. Depois de meses de otimismo sustentado por narrativas de crescimento, inteligência artificial e liquidez abundante, os dados recentes e os sinais políticos começaram a impor um freio mais realista — especialmente no campo econômico. No Brasil, o mercado voltou a digerir os efeitos colaterais do ciclo de juros elevados e do rearranjo fiscal em curso. As estatais encerraram 2025 com um déficit de R$ 5,9 bilhões, segundo o Banco Central, reforçando a percepção de que a pressão sobre as contas públicas não é apenas conjuntural. O dado reacende o debate sobre eficiência, governança e o custo fiscal de empresas controladas pelo Estado em um ambiente de crescimento mais moderado. Ao mesmo tempo, a indústria brasileira sente os efeitos da reconfiguração global das cadeias produtivas. A consolidação da presença chinesa no setor de alumínio, após a compra da CBA, reposiciona o Brasil como um polo relevante de produção, mas também levanta alertas sobre dependência externa e competição assimétrica. O endurecimento das regras para importação de aço, anunciado pelo governo, caminha justamente nessa direção: proteger a indústria nacional em um momento de excesso de oferta global. No campo monetário, o mercado começa a olhar para frente. A manutenção da Selic em patamares elevados ainda sustenta o fluxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira, mas o discurso do Copom já prepara o terreno para um ciclo de cortes. O recado é claro: a autoridade monetária quer preservar credibilidade e só reduzir juros quando houver conforto maior com a trajetória da inflação e da dívida. Esse pano de fundo ajuda a explicar o comportamento errático do Ibovespa, que alterna dias de forte entrada de capital externo com sessões de realização. O investidor está menos disposto a pagar qualquer preço por crescimento e mais atento à qualidade dos resultados, à geração de caixa e à solidez financeira das empresas. No cenário internacional, a economia global também passa por um momento de inflexão. A escolha de Kevin Warsh para comandar o Banco Central americano reforça a leitura de que os Estados Unidos caminham para uma política monetária mais conservadora, com menos tolerância a desequilíbrios fiscais e menos espaço para estímulos prolongados. A consequência imediata é a reprecificação de ativos de risco e uma migração gradual para posições mais defensivas. Esse movimento ficou evidente no mercado de tecnologia. A queda expressiva das ações da SAP, motivada por dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo SaaS diante do avanço da inteligência artificial, escancara uma mudança importante: a IA deixa de ser apenas um vetor de crescimento e passa a ser também um fator de disrupção para modelos de negócio consolidados. O mercado começa a separar vencedores estruturais de empresas que podem ser canibalizadas pela própria tecnologia que ajudaram a difundir. As commodities, tradicional termômetro do apetite global, também deram sinais mistos. Ouro e prata sofreram correções relevantes após meses de alta, refletindo tanto a realização de lucros quanto uma redução momentânea do prêmio de risco. Ainda assim, o pano de fundo segue sendo de cautela, com tensões geopolíticas e desaceleração seletiva do crescimento global mantendo esses ativos no radar de proteção. No conjunto, o que se desenha é um ambiente econômico menos eufórico e mais pragmático. A narrativa dominante deixa de ser “crescer a qualquer custo” e passa a ser “crescer com eficiência”. Para investidores e gestores, o desafio agora não é acompanhar a próxima moda, mas entender quais ativos conseguem atravessar esse novo ciclo com balanços saudáveis, margens defensáveis e menor dependência de liquidez farta. A economia global não entrou em crise, mas claramente mudou de marcha. E quem não ajustar a leitura corre o risco de continuar acelerando enquanto o resto do mundo já começou a frear.