Capital estrangeiro dita o ritmo, crédito entra em modo defensivo e o mundo acelera

O Ibovespa encerrou a sexta-feira em forte alta de 2,20%, acumulando valorização de 8,98% no mês, impulsionado principalmente pela entrada robusta de capital estrangeiro. O movimento confirma uma mudança relevante de humor: o investidor global voltou a olhar para o Brasil como destino tático, especialmente em commodities e ativos ligados a crescimento, enquanto o cenário doméstico passa por um ajuste silencioso, porém profundo, no sistema de crédito. A principal evidência desse fluxo foi a injeção de R$ 8,7 bilhões por investidores estrangeiros na B3, com quase metade desse volume direcionado à Vale. A combinação de preços internacionais mais firmes, perspectiva de crescimento global acima do esperado e reposicionamento de carteiras em mercados emergentes criou um ambiente favorável para o rali, mesmo em meio a ruídos institucionais locais. No plano corporativo, o destaque do dia veio do exterior, mas com DNA brasileiro. A Capital One anunciou a compra da Brex por US$ 5,15 bilhões, encerrando um dos ciclos mais emblemáticos do ecossistema de fintechs fundadas por brasileiros no Vale do Silício. A operação reforça a tese de consolidação no setor financeiro global: crescimento acelerado sem escala de funding próprio se torna cada vez menos sustentável em um mundo de juros estruturalmente mais altos. Mais do que o movimento diário da bolsa, o Radar Financeiro acompanha os vetores que ainda não estão totalmente refletidos nos preços: mudanças na arquitetura do crédito, reprecificação de risco sistêmico, comportamento do capital estrangeiro e impactos geopolíticos sobre ativos reais. É nesse espaço que surgem os sinais antes do consenso. Acesse o Radar e acompanhe a leitura completa. Enquanto a bolsa celebra, o sistema financeiro entra em modo defensivo. Após os desdobramentos do caso Master e do Will Bank, o debate em Davos passou a girar em torno da criação de um modelo de FGC proporcional, ideia defendida pelos grandes bancos para limitar riscos futuros e redistribuir custos de resgates. Em paralelo, o Banco Central solicitou provisões adicionais de R$ 2,6 bilhões ao BRB, reforçando a postura mais dura do regulador frente a instituições com fragilidade patrimonial.O recado é claro: a era da tolerância com estruturas alavancadas e governança frouxa ficou para trás. O crédito seguirá disponível, mas com critérios mais rigorosos, spreads maiores e menor margem para improviso. Esse novo regime afeta diretamente empresas altamente dependentes de financiamento, como ficou evidente no pedido de recuperação judicial do Grupo Elétron, com dívida de R$ 1 bilhão no setor de comercialização de energia. No setor produtivo, a Vale sinalizou ambição ao projetar produção de 1 milhão de toneladas de cobre por ano com ativos no Brasil, movimento alinhado à crescente demanda global por minerais críticos ligados à transição energética e à infraestrutura de tecnologia. Ao mesmo tempo, o Banco Central anunciou novas regras de segurança para o Pix a partir de março, indicando que o sistema financeiro digital também entra em uma fase de maior controle e sofisticação regulatória. No agro, a JBS inaugurou uma fábrica na Arábia Saudita e anunciou novos planos de expansão, intensificando a disputa global com a Sadia em mercados estratégicos do Oriente Médio. Já no campo regulatório, o governo brasileiro sinalizou intenção de retirar do mercado defensivos classificados como ultraperigosos, o que pode alterar custos e produtividade em algumas cadeias agrícolas nos próximos ciclos. O pano de fundo internacional segue decisivo. A economia americana cresceu a uma taxa anualizada de 4,4% no terceiro trimestre de 2025, confirmando uma resiliência que sustenta o apetite por risco global. Ao mesmo tempo, o governo dos EUA intensifica movimentos geopolíticos: negocia novas bases militares na Groenlândia, avança em disputas judiciais contra grandes bancos e sinaliza atuação direta para redesenhar o equilíbrio político em Cuba. Em paralelo, o Irã ampliou o uso de stablecoins para contornar sanções e proteger sua moeda, um sinal claro de como finanças digitais passaram a integrar estratégias de sobrevivência econômica. O dia termina com um contraste marcante. De um lado, mercados em alta, liquidez internacional fluindo e ativos brasileiros se beneficiando do ciclo global. Do outro, um ajuste estrutural no crédito, maior rigor regulatório e um mundo em que economia, tecnologia e geopolítica se entrelaçam de forma cada vez mais explícita. Para quem investe, entender esse contexto deixou de ser diferencial — passou a ser condição básica de sobrevivência no mercado.